É agravante a atual situação dos processos marginalizatórios dos grandes aglomerados urbanos, facilitadores das práti-cas ilícitas, caracterizadas como violência. Quando os investimentos estão restritos às áreas de segurança e força poli-cial, e os mesmos não oferecem resultados efetivos, é necessário que o quadro seja reavaliado. A banalização das ditas práticas inconstitucionais, aos olhos dos políticos, tem tornado a violência social e suas verten¬tes (agressões físicas, psicológicas e morais aos grupos minoritários) um fato desprovido de solução. Comumente ou¬ve-se falar em investimentos que propiciem o aumento do poderio bélico das forças policiais, mas pouco é discutido sobre o combate a corrupção por entre os governistas. Segundo recente declaração do presidente da república Luís Inácio, 60% dos investimentos nas diversas áreas são perdidos em sua distribuição aos Estados e Municípios. É ainda mais profunda a causa da violência na sociedade. A ausência de política de infra-estrutura na construção dos bairros contribui para o crescimento desordenado das periferias aumentando a níveis alarmantes o abismo de estrati¬ficação social. Quando a desigualdade entre as classes atinge seu ápice, torna-se consequência o aumento gradativo das práticas ilegais.
A violência não é somente mais um caso de polícia, mas de políticas públicas. Investir unicamente em armamentos e nas forças policiais não resolverá o atual quadro de falência das instituições que regem a sociedade. Somente propor-cionando o desenvolvimento da educação pública e combatendo a corrupção o país atingirá o tão esperado progresso
de grande nação.
Redação vencedora das "Olimpiadas da Leitura e da Redação" do ensino médio
sábado, 7 de março de 2009
quinta-feira, 5 de março de 2009
A MULHER NO PODER
Se me entregassem o mundo de presente, eu o repassaria imediatamente às mãos de uma mulher. Qualquer uma: branca, negra, amarela, pele vermelha. Assim fazendo, esta¬ria libertando o planeta de milhões de anos de domínio de macho, desde quando a predisposição à caça o aparelhou também para oprimir, subjugar, perseguir tudo aquilo que estivesse na mira de sua arma ou à margem de seu coração. O macho, desde cedo, projetou um mundo dividido, com territórios demarcados, elevando à máxima altura o valor gramatical dos pronomes possessivos de primeira pessoa: meu, minha, meus, minhas. Com isso, dedicou-se, pelo resto da história, a usurpar o que estivesse na órbita das outras pessoas. Deu no que deu. Este mundo que nós temos, e no qual somos obrigados a viver, é o mundo dos homens, da imposição fálica e do medo geral. Não repassaria este mundo a uma mulher, apoiado simplesmente nos estereótipos e mitos que se criam a sua imagem: sexo frágil, alma delicada, sensibilidade rara e outras artimanhas que os próprios homens criaram para mante-las longe do poder. Não entregaria o mundo à "Amélia", nem às "mulheres de Atenas".
Entregá-lo-ia, sim, às donas de casa de família pobre, economistas e administradoras supremas de uma universidade que faz prova todo dia; matemáticas perspicazes que projetam o quase nada no desdobramento de um mês que parece nunca acabar.
Entregá-lo-ia a todas as mães, de cujas mãos a violência arrancou um filho, tingindo-lhe repentinamente os cabelos de indignação e dor. Estas saberiam aplainar o caminho da paz, porque o sofrimento é o grande arado da sabedoria. Entregaria este mundo às mães solteiras, abandonadas pela covardia do macho, e que, mesmo assim, cumpriram à risca o compromisso com a vida, assumindo seu filho de um sobrenome só. Estas saberiam transferir dignidade e ética para as mínimas esferas do poder, como ações cotidianas de sua governança.
Entregaria este mundo a quem nasceu com o dom da criação, da resignação altiva, da decisão pensada; a quem levou os últimos milénios anotando erros e ordenando o caos. Entregaria sem pensar duas vezes, e me recolheria à incompetência de macho, sabendo, no meu coração, que, a partir de então, iria viver em um mundo muito mais feliz do que aquele que comandei por todos esses anos.
- Jorge Portugal. Educador e poeta é membro do conselho nacional de politica e cultura.
Assinar:
Postagens (Atom)